A Argentina é um daqueles países que parecem ter sido condenados a viver de expectativas. Em diferentes momentos da sua história, acreditou que seria uma das grandes potências do mundo, que a riqueza agrícola resolveria quase tudo, que uma nova política salvaria a economia, que a democracia finalmente encerraria os velhos conflitos, que o crescimento voltaria para ficar e que, depois de cada crise, bastaria começar outra vez. E o mais extraordinário é que, apesar de tantas desilusões, os argentinos continuam a acreditar. Talvez seja essa a sua maior fraqueza. Ou talvez seja exactamente a sua maior força.
As origens da nação argentina e a era de ouro da agroexportação
Quando declarou a independência em 1816, a Argentina estava longe de ser o país rico e influente que viria a imaginar-se algumas décadas mais tarde. A construção do novo Estado foi acompanhada por conflitos internos, disputas entre diferentes modelos políticos e uma longa luta para decidir quem mandava, como deveria funcionar o país e, sobretudo, como conciliar um território enorme com interesses regionais muito diferentes. A unidade nacional não nasceu pronta dentro de uma caixa. Foi sendo montada aos poucos, muitas vezes com mais entusiasmo do que instruções de montagem.
No final do século XIX e início do século XX, porém, parecia que a Argentina tinha finalmente encontrado a fórmula. A expansão da agricultura e da pecuária, as exportações de carne e cereais, a chegada maciça de imigrantes europeus e os investimentos estrangeiros transformaram o país. Buenos Aires cresceu rapidamente e a Argentina tornou-se uma das economias mais prósperas do mundo. Havia riqueza, terras férteis, uma população em expansão e uma ligação privilegedada aos mercados europeus. Durante algum tempo, parecia perfeitamente razoável acreditar que aquele país tinha futuro garantido.
E foi precisamente aí que começou uma das grandes ironias argentinas: o país passou a acreditar que a prosperidade era uma condição permanente, quando a História estava apenas a conceder-lhe uma temporada particularmente boa. As duas guerras mundiais, a Grande Depressão e as transformações do comércio internacional alteraram profundamente o modelo económico. A Argentina descobriu que depender fortemente das exportações agrícolas podia ser extraordinariamente lucrativo — até o mundo decidir mudar as regras.
O surgimento do peronismo e as oscilações políticas do século XX
Depois veio Juan Domingo Perón, uma das figuras mais influentes e controversas da história argentina. A partir de 1946, o peronismo transformou profundamente a política e a sociedade do país, combinando nacionalismo, intervenção económica, direitos laborais e uma relação directa com as massas trabalhadoras. Eva Perón tornou-se uma figura central desse movimento e uma das personalidades políticas mais conhecidas da América Latina. O peronismo sobreviveria à queda de Perón, à sua morte e a décadas de confrontos políticos. Na Argentina, aparentemente, até os movimentos políticos têm dificuldade em reformar-se, desaparecer ou simplesmente reformar a casa e entregar as chaves.
A segunda metade do século XX foi marcada por instabilidade, golpes militares, crises económicas e uma sucessão de experiências políticas. Em 1976, um golpe de Estado instaurou uma ditadura militar responsável por uma repressão brutal, com milhares de pessoas assassinadas ou desaparecidas. A Guerra das Malvinas, em 1982, terminou numa derrota militar perante o Reino Unido e acelerou o colapso do regime. Em 1983, a democracia regressou com a eleição de Raúl Alfonsín. Depois de décadas de autoritarismo, a Argentina voltava a acreditar que talvez, desta vez, tivesse encontrado o caminho definitivo.
Só que a economia tinha outros planos.
Do Plano de Convertibilidade ao colapso do crash de 2001
Os anos 1980 terminaram com uma crise económica gravíssima e hiperinflação. Nos anos 1990, Carlos Menem aplicou reformas de mercado e, em 1991, o Plano de Convertibilidade fixou o peso à paridade com o dólar. Durante vários anos, a estratégia funcionou: a inflação caiu drasticamente e a economia cresceu. A Argentina voltou a ser apresentada como exemplo de estabilização e modernização. Havia uma nova promessa, uma nova confiança e, aparentemente, uma nova Argentina.
A História, que já tinha alguma experiência com este entusiasmo, esperou.
A recessão começou em 1998 e prolongou-se. O endividamento aumentou, a economia perdeu capacidade de recuperação e o regime cambial tornou-se cada vez mais difícil de sustentar. Em Dezembro de 2001, o país entrou numa das crises económicas e sociais mais graves da sua história. Houve default da dívida, restrições aos levantamentos bancários, queda da produção, desemprego, protestos e enorme instabilidade política. O presidente Fernando de la Rúa abandonou o cargo, e a Argentina atravessou uma sucessão extraordinária de presidentes num espaço de poucos dias. O país parecia ter chegado ao fim da linha.
Mas não chegou.
Recuperação, FMI e a inquebrável identidade cultural argentina
Em 2003, a economia começou a recuperar, ajudada pela mudança do regime cambial, pela recuperação da procura interna e por um contexto internacional favorável às exportações argentinas. Depois de uma das maiores quedas económicas da sua história recente, o país voltou a crescer. Mais uma vez, a Argentina tinha conseguido fazer aquilo que parece ser uma especialidade nacional: cair com estrondo, passar algum tempo a discutir quem teve a culpa e, finalmente, levantar-se convencida de que agora vai ser diferente.
Naturalmente, “agora vai ser diferente” revelou-se uma frase perigosamente familiar. As décadas seguintes trouxeram novas dificuldades económicas, inflação, endividamento, mudanças políticas e sucessivos programas destinados a estabilizar uma economia que parece ter uma relação particularmente complicada com a palavra “estabilidade”. A relação com o Fundo Monetário Internacional tornou-se igualmente parte dessa história, com sucessivos acordos e crises que transformaram o FMI numa espécie de personagem recorrente: pode mudar o governo, mudar a política económica e mudar o discurso, mas lá aparece novamente.
E, no entanto, reduzir a Argentina às suas crises seria injusto. O país produziu uma cultura extraordinária, uma literatura de dimensão mundial, ciência, música, cinema, futebol e uma vida intelectual particularmente intensa. Buenos Aires tornou-se uma das grandes capitais culturais da América Latina. A Argentina também construiu instituições democráticas que, apesar das suas dificuldades, sobreviveram ao trauma da ditadura e às enormes crises económicas. O país aprendeu, tropeçou, voltou atrás e tentou novamente.
Talvez seja por isso que a história argentina seja menos uma história de fracasso do que uma história de expectativas gigantescas. Um país com território imenso, recursos agrícolas extraordinários, população altamente urbanizada e uma tradição cultural poderosa sempre parece ter razões para acreditar que pode fazer melhor. O problema é que a Argentina raramente acredita em pequeno. Quando sonha, sonha com grandeza. Quando entra em crisis, a queda também tende a ser grande.
No fundo, a Argentina parece viver numa espécie de ciclo histórico próprio: acreditar, crescer, entusiasmar-se, tropeçar, discutir, recomeçar e voltar a acreditar. É uma sequência que já se repetiu tantas vezes que poderia ser considerada uma tradição nacional, embora provavelmente ninguém tenha tido coragem de a colocar oficialmente no calendário. E talvez essa seja a característica mais argentina de todas: depois de cada crise, quando seria perfeitamente compreensível desistir, o país volta a olhar para a frente e pergunta, com uma mistura de esperança e teimosia: “E se desta vez resultar?”
